Calma.

O título foi pra chamar a atenção.

Eu sei, perdoe-me por isso, não é um recurso que eu uso com muita frequência, mas eu queria trazer à luz esse tema que está criando burburinho ultimamente e que necessita de uma boa e sensata reflexão: o crente precisa orar? Bom, depende.

A grande discussão surgiu por conta do que se entende quando se diz que o crente precisa orar.

Alguns cristãos, por anseio em combater o legalismo (não posso culpá-los, muitas vezes, sou um deles), trouxeram essa discussão à tona ao dizer sem o menor pudor que o cristão não precisa orar.

Por conta disso, surgiram muitos outros crentes, alguns legalistas, semipelagianos(1) clássicos, outros simplesmente sensatos, mas sem muita paciência, combatendo veementemente essa afirmação, colocando o contrário: o crente precisa orar sim.

No meio disso, talvez haja espaço para construção de uma bela reflexão sobre a relação do cristão com a oração.

Eu mesmo fiz essa reflexão e me fez muito bem.

Gostaria de compartilhar isso com vocês.

Veja, há duas formas de entender o “precisar orar”.

Uma delas está intimamente ligada com o semipelagianismo, com o legalismo.

Não é algo que se vê com muita frequência, mas que infelizmente ainda existe.

Estou falando daquele sentimento de obrigação ritualística.

“Preciso orar, porque essa é a minha obrigação religiosa, eu não quero orar, eu não sinto vontade de falar com Deus, mas tenho que cumprir minha obrigação.

”O problema, nesse caso, não é o orar em si, nem o quanto se ora, mas sim a sinceridade do ato.

Se é preciso orar para cumprimento de uma obrigação, não se está vivendo o relacionamento apaixonado que Deus quer que tenhamos com Ele.

Nesse contexto, o “Eu não preciso orar mais” talvez seja nada mais do que um grito de liberdade, de alguém que finalmente entendeu que a oração não é sua passagem para o céu, mas sim resposta de relacionamento.

Afinal, eu não preciso conversar com minha esposa, o faço porque a amo e amo conversar com ela.

Eu não preciso orar mais, não tenho mais essa obrigação, mas eu oro com paixão e com fervor, porque me dá prazer, satisfação e completude conversar com o meu Pai.

É simplesmente lindo viver isso.

Agora, dando um passo a mais, e agora entrando um pouco na minha experiência pessoal de libertação do legalismo, após conhecer essa liberdade e passar a viver esse relacionamento, é notável que sim, o crente precisa orar.

Mas agora é diferente.

É diferente, porque antes eu precisava orar para cumprir uma obrigação.

Não era sincero, não era apaixonado, era simplesmente um ritual.

Agora, eu preciso orar assim como eu preciso de água quando estou com sede, assim como eu preciso de afago, quando estou em pranto, assim como eu preciso de refúgio, quando estou com medo.

Eu preciso orar por necessidade, porque n’Ele está tudo que me faz vivo, pois não vivo mais, mas Cristo vive em mim.

Sim, o crente precisa orar.

Mas talvez seja bom tirar dessa oportunidade uma reflexão de como se tem desenvolvido o seu relacionamento com Deus.

Você precisa orar por estar na hora do dia em que o seu ritual de oração tem que ser cumprido, ou você precisa orar por ter fome e sede do Espírito? Uma coisa eu digo com convicção: você não precisa orar pelo favor de Deus, ele já veio há 2000 anos, e lhe salvou quando você ainda estava morto em suas transgressões, sem a menor possibilidade de dar qualquer coisa em troca, nem oração, nem nada.

Experimente a necessidade de orar, abandone a obrigação.

(1) Semipelagianismo é uma heresia clássica que afirma ter o homem bondade o suficiente em si mesmo para cooperar com a Graça de Deus, dependendo a salvação dos seus próprios esforços.