Políticas divisivas estimuladas por premiê indiano acirram tensões entre hindus e muçulmanos e ameaçam a estabilidade na maior democracia do mundo.

O presidente Jair Bolsonaro ao lado do primeiro-ministro Narendra Modi, durante cerimônia de comemoração do Dia da República da Índia Alan Santos /PR Enquanto comemorava com uma parada militar o 71º aniversário da Constituição da Índia, tendo o presidente Jair Bolsonaro como convidado de honra, o premiê Narendra Modi recebeu do principal partido da oposição uma cópia da Carta Magna com o seguinte recado: “Leia, quando fizer uma pausa em dividir o país.” Neste segundo mandato, aos 69 anos, Modi vem incrementando claramente a orientação nacionalista hindu à Índia.

O nome do primeiro-ministro é frequentemente associado à divisão do país e à promoção da intolerância. Em dezembro passado, o Parlamento dominado por seu partido, o Bharatiya Janata (BJP, na sigla em inglês), aprovou o contestado projeto de lei que acelera a cidadania para minorias religiosas de países vizinhos. A medida beneficia hindus, sikhs, budistas e cristãos de Afeganistão, Bangladesh e Paquistão.

Mas é criticada por marginalizar ainda mais os muçulmanos, que integram uma minoria de 200 milhões de pessoas e que por si só representa uma das maiores comunidades do mundo. Calcada na religião, a lei da cidadania deflagrou protestos pelas principais cidades, reprimidos com violência.

O governo bloqueou serviços de internet e redes de celulares e impôs o toque de recolher. Eleito premiê pela primeira vez em 2014, Modi imprimiu sua marca no nacionalismo hindu.

Como ministro-chefe do estado de Gujarat, ele havia sido acusado de omissão nos confrontos violentos promovidos contra muçulmanos, que em 2002 deixaram mais de mil mortos. A má reputação, por não ter evitado o derramamento de sangue, o impediu, por vários anos, de entrar nos EUA e no Reino Unido.

Mas a ascensão no BJP e a consequente vitória eleitoral o reabilitaram no cenário internacional.

De pária, Modi foi alçado a parceiro estratégico. Ao mesmo tempo que estimulava reformas econômicas, o premiê incentivava a proibição de consumo de carne bovina -- para aplacar a base nacionalista hindu -- acirrando as tensões com muçulmanos.

No segundo mandato, o governo amarga ainda a desaceleração econômica.

A estimativa é o crescimento de 5% este ano, o mais baixo desde 2009, em contraste com a taxa de 8,2% em 2017. Analistas apontam a política divisiva de Modi como um risco à estabilidade na maior democracia do planeta.

Suas iniciativas vêm corroendo a tradição secular da Índia.

E, como avaliou o ex-chanceler Shyam Saran, em artigo no jornal “Business Standard”, um país dividido é um país inseguro.