Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infantil é celebrado nesta segunda-feira (18).

Famílias falam sobre consequências dos crimes na vida das crianças.

Famílias de crianças abusadas sexualmente relatam impactos na vida das vítimas e das famílias Bernardo Coutinho/ A Gazeta O Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual Infantil, celebrado nesta segunda-feira (18), busca conscientizar sobre a seriedade desse tipo de crime e sua incidência no país.

O G1 conversou com famílias de crianças que foram abusadas ou exploradas sexualmente para entender quais são as consequências nas vidas das vítimas.

"É uma marca que infelizmente meu filho nunca vai esquecer.

E, para nós da família, é como se tivessem nos cortado ao meio", afirma o motorista José Orlando Gama de Souza, pai de um menino de 10 anos que relatou ter sido abusado sexualmente pelo tio em São Vicente, no litoral de São Paulo. José contou, em entrevista ao G1, que o filho tinha seis anos e vivia com a mãe quando os estupros começaram.

Conforme registrado no boletim de ocorrência pelo pai, o menino morava no mesmo imóvel que o tio, de 41 anos, mas em casa separada.

A vítima afirmou aos policiais que o tio o violentava constantemente.

De acordo com o relato, o familiar o levava para casa dele, onde cometia os abusos.

Segundo a criança, ele era agredido quando tentava resistir aos estupros e ameaçado de morte caso contasse para alguém.

O tio dava presentes a criança.

Ainda investigado, o suspeito está solto e fora do país.

Menino aparece em várias imagens recebendo presentes do tio, segundo pai Arquivo Pessoal O pai define o crime como cruel, por se tratar de crianças inocentes, que não sabem entender ou se defender do agressor.

"Meu filho tinha seis anos na época dos estupros e agora fará 11.

Até hoje ele faz acompanhamento psicológico e terá que passar pelo psiquiatra.

As vezes ele tem crises, fica agressivo e não consegue dormir.

Sofremos muito com isso.

O processo ainda corre no fórum e o tio está na Itália.

Só queremos justiça.

Esse tipo de crime, e a falta de justiça no Brasil, são coisas revoltantes.

O mais dolorido é que ele não entendia o que acontecia, se culpava e não tinha força para contar, fugir ou se defender", diz o pai.

Rosilene Pereira, de 56 anos, também lamenta pelas consequências que o abuso sexual deixou na vida da neta, de apenas 11 anos.

O suspeito de estuprar a vítima é pai de uma amiga dela.

Ele também foi denunciado por estuprar a própria filha, de 12 anos, e um outro colega da menina, de 14 anos, além da neta de Rosilene.

Conforme o Conselho Tutelar relatou em 2019 ao G1, uma das crianças chegou a contar que elas sofriam os abusos sexuais juntas, em um mesmo cômodo da casa.

Os estupros, segundo as vítimas, ocorriam desde 2014.

O crime foi denunciado em 2019, mas a avó relatou em entrevista, nesta segunda-feira (17), que até o momento ele não foi preso porque não houve o flagrante.

De acordo com ela, o caso segue sendo acompanhado pela polícia.

"A minha neta passou por psicólogo e ficou com medo de vir para a minha casa, já que tudo aconteceu quando ela passava os fins de semana aqui, porque a amiga dela, filha desse homem, mora na mesma rua.

Pra gente é muito difícil.

Ela [neta] morre de medo de sair de casa até hoje e eu não suporto olhar a casa que ele mora.

Se a gente pudesse, já tinha se mudado daqui.

Nunca mais recebi uma visita dela por conta de tudo que ela passou.

E ela amava ficar aqui comigo.

É uma coisa que não tem mais volta e que não pode ser apagada.

Transforma a criança pra sempre".

Sinais e sequelas A orientadora educacional e terapeuta especialista em sexualidade e afetividade Christiane Andréa explica que a criança que sofre qualquer tipo de violência sexual apresenta mudanças comportamentais e cognitivas.

De acordo com ela, as mudanças podem ser no comportamento, regressão, medo, pânico, desenhos, brincadeiras e nos hábitos de higiene.

"Elas podem passar a ter comportamentos agressivos.

Algumas vezes também fazem desenhos que retratam as partes íntimas, crianças chorando, pedindo socorro.

Alguns desenhos precisam de um especialista (psicólogo, terapeuta, psicopedagogo) para traduzi- los.

Podem ainda fazer brincadeiras de cunho sexual, onde retratam com bonecos ou com amiguinhos situações ou cenas de sexo.

Como por exemplo, colocar os bonecos um em cima do outro e tirar as roupas íntimas para brincar", explica a especialista. Segundo Christiane, a vítima ainda pode mudar os hábitos de higiene, como não querer tomar banho, escovar os dentes, trocar de roupas e mostrar agressividade toda vez que percebe que alguém irá tocá-la.

Algumas crianças apresentam regressão a comportamentos infantis, tais como choro excessivo sem causa aparente, enurese (emissão involuntária de urina) e voltam a chupar os dedos.

Há também o medo ou pânico em relação a certa pessoa, ou desagrado por parte da criança ao ser deixada sozinha com alguém.

Elas também passam a sentir medo de escuro e lugares fechados.

"O abuso sexual tem um impacto muito grande na saúde física e mental da criança, deixando marcas em seu desenvolvimento, com danos que podem persistir por toda a vida.

Sua detecção precoce possibilita o tratamento e acompanhamento adequados, com a minimização das sequelas.

O envolvimento familiar deve ser levado em conta.

A identificação da violência doméstica e dos sinais de alerta físicos e psicológicos para o abuso sexual fazem parte da avaliação". Terapeuta lançou livro que aborda a importância de falar sobre o tema com as crianças e mostra como identificar a vítima de abuso sexual Arquivo pessoal Conforme explica a terapeuta, o tempo em que a criança ficará exposta a essa violência, a idade dela e o tipo de abuso são fatores agravantes para a vida da vítima.

"A educação sexual é de responsabilidade de todos.

Primeiramente da família, da escola e da sociedade.

Sabemos que infelizmente poucos pais conversam com seus filhos, deixando a cargo da escola.

Ela, por diversos motivos, também não consegue dar conta e as crianças buscam suas respostas, infelizmente, nas redes sociais, onde mora o perigo", acrescenta.

Christiane lançou, recentemente, o livro 'Vamos conversar? Sobre Violência Sexual Infantil' por perceber a dificuldade de pais e educadores em iniciar uma conversa sobre esse tema.

A obra aborda o assunto de forma lúdica e interativa.

"Os pais e responsáveis devem ficar atentos.

Independentemente da idade, é preciso conversar com as crianças sobre abuso sexual.

Fale sobre não tocar nas suas partes intimas.

Não deixe a criança ir sozinha a banheiros públicos, parquinhos ou qualquer lugar em que fuja de seus olhos.

Esses locais são os preferidos dos abusadores.

Ensine seu filho a não conversar com estranhos, nem aceitar doces ou presentes em troca de favores.

Ensine a dizer não quando alguém quiser beijá-lo ou abraçar sem que ele queira.

Não o force a beijar ou abraçar alguém se não for a vontade dele", orienta.

Para a especialista, é necessário ter leis mais duras e, principalmente, de responsabilização do agressor.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que o estado de São Paulo conta com 27 Delegacias de Polícia da Infância e da Juventude (DIJUs) e as especializadas no DHPP: 4ª Delegacia de Repressão à Pedofilia e a Delegacia de Repressão aos Homicídios Praticados Contra Criança e Adolescente. As 134 Delegacias de Defesa da Mulher (DDM), incluindo as unidades em Santos e Praia Grande, também atendem crianças e adolescentes vítimas de violência ou abusos.

Além disso, todos os distritos policiais do Estado são capacitados ao acolhimento de crianças e adolescentes vítimas. Segundo a SSP, a Polícia Militar atua diuturnamente no combate a todas as modalidades criminosas.

Toda e qualquer ocorrência envolvendo vítima criança ou adolescente, seja em situação de perigo a integridade física e psicológica ou ainda vulnerabilidade social, as partes são encaminhadas para a Delegacia da Infância e Juventude, DDMs e demais distritos policiais.

Mudança de comportamento, regressão e pânico são resultados da exploração infantil e do abuso sexual Reprodução/ TV Mirante