Na reserva, mais de 40% dos habitantes vivem sem acesso a água potável.

Ruas pavimentadas, hospitais, mercados e energia elétrica são raros.

Os navajos formam o maior povo indígena dos Estados Unidos Getty Images/BBC Quando Marie Hoskie ouviu falar do novo coronavírus pela primeira vez, em uma rádio local da Nação Navajo, maior reserva indígena dos Estados Unidos, ela ficou paralisada. Não por causa do vírus em si, mas em razão de uma das recomendações mais eficientes para evitá-lo. "Disseram que devemos lavar as mãos durante 20 segundos.

E eu me perguntei como iria fazer isso se não tenho nem água para beber, cozinhar ou limpar", afirmou à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC. Hoskie vive em Monument Valley, uma das diversas comunidades da Nação Navajo que foram atingidas severamente pela pandemia de covid-19. Ela, como muitos ali, precisa se locomover quase 30 km várias vezes por semana a fim de encontrar uma fonte de água potável.

"Agora nos dizem que devemos ficar em casa.

Mas eu tenho que sair, mesmo que eu não queira." Ela não enfrenta essas dificuldades sozinha.

Quase 40% dos navajos que vivem na reserva não têm acesso a água potável. Quase 40% da Nação Navajo não tem acesso à água potável Getty Images/BBC Energia elétrica, internet e ruas pavimentadas são quase luxo por ali.

E como se não bastasse, a Nação Navajo é a região com mais casos de coronavírus per capita nos Estados Unidos. Até 18 de maio, mais de 4 mil indígenas haviam contraído o vírus, e cerca de 170 haviam morrido em decorrência da covid-19. "Há muitos aqui que perderam pai, mãe e irmãos em poucas semanas.

O golpe tem sido forte, muito forte", lamenta Hoskie. Se fosse um Estado, seria o mais pobre Se a Nação Navajo fosse um país, teria quase o tamanho de Portugal.

É a maior reserva indígena em área ocupada nos EUA, ao longo de três Estados (Arizona, Utah e Novo México), mas é apenas uma fração da área que ocupava até o governo dos EUA tomá-la. Hoje, vivem ali cerca de 170 mil pessoas, descendentes de um dos povos originários do oeste americano. Ainda que vivam atualmente de mineração, hotelaria e cassinos, como muitas outras reservas indígenas, os navajos também sofrem com um elevado índice de pobreza, abuso de drogas, violência sexual, baixos níveis de educação, desemprego, serviços de saúde esvaziados e habitações precárias.

Se a Nação Navajo fosse um Estado americano, segundo vários estudos, seria o mais pobre do país.

Dados do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano aponta que mais de um terço das residências ali estão superlotadas e com escassez de água, energia elétrica, aquecimento, geladeiras e outras necessidades básicas. A Nação Navajo é também a mais tóxica: abriga 521 minas de urânio abandonadas, quatro processadores nucleares desativados e mais de 1.100 lugares contaminados por resíduos radioativos, segundo a Agência de Proteção Ambiental dos EUA. Residências com quatro gerações Aparentemente, tudo começou com uma celebração religiosa. Os navajos, que mantêm seus ritos ancestrais, também foram influenciados por congregações evangélicas que lhes prometem uma vida melhor após os inúmeros sofrimentos ao longo da história. Diversas pessoas de lugares diferentes se reuniram em meados de março para um culto na comunidade de Chilchinbeto, no Arizona. Alguém que havia contraído o novo coronavírus foi ao encontro e desde então a doença se espalhou por toda a reserva.

"Acredito que a forma como o coronavírus se espalhou tão rápido tem a ver com as próprias condições em que vivem as comunidades", afirmou à BBC News Mundo a médica brasileira Carolina Batista, que integra uma equipe da organização Médicos Sem Fronteiras que foi à região prestar ajuda. Os navajos têm suas próprias tradições religiosas Getty Images/BBC Segundo ela, há residências em que vivem juntas quatro gerações da mesma família, e se uma pessoa fica doente, acaba contaminando diversos familiares.

"Os hospitais são escassos e carentes de recursos e de profissionais", diz.

Segundo ela, muitos não imaginam que ''essas condições, frequentes em nações pobres da África, da Ásia e da América Latina, também poderiam ser encontradas em um dos país mais desenvolvidos do mundo". 'Conheço a maioria dos pacientes desde a infância' "Me chamo Michelle Tom.

Fui jogadora de basquete profissional e agora sou uma das poucas médicas de origem navajo que atuam na comunidade. Trabalho em um hospital em Winslow, no Arizona, um pequeno povoado na fronteira sul da Nação Navajo. Nunca tive dúvida de que retornaria à minha comunidade depois de estudar medicina. Eu poderia ter ido parar em algum hospital de uma grande cidade, com certeza não me faltariam recursos ou melhores condições, mas isso não era uma opção para mim. Acredito que tenha a ver com a forma como criamos os navajos.

Você, como indivíduo, nunca vem primeiro: antes vem sua família e sua comunidade.

Nunca imaginei que um ano depois de voltar me veria em algo assim. É um momento muito emotivo na minha vida, talvez o mais intenso que eu terei em toda minha carreira. A maioria dos pacientes que chegam doentes com coronavírus ao hospital onde eu trabalho são pessoas que conheço desde criança.

Não são estranhos.

Este é o meu lugar, esta gente é a minha família.

Os membros de nosso clã são todos uma família, porque sentimos que estamos conectados uns com os outros. E isso só aumenta minha angústia. Chego todo dia para trabalhar e não temos testes suficientes, só posso testar os que estão muito doentes.

Não temos cardiologistas nem outros especialistas necessários para atender esses casos.

Para toda a Nação Navajo, só há 25 leitos de cuidados intensivos, por isso muitos pacientes precisam ser transportados pelo ar para outros hospitais a centenas de quilômetros daqui, e nesta doença esse tempo pode significar vida ou morte.

Tampouco temos equipamentos de proteção necessários para mim e meus colegas de equipe.

Passei a conversar com uma ONG para tentar obtê-los. Desde meados de março, eu tive que mudar de casa para não colocar em risco a minha família.

Eu cresci em um lar com nove pessoas, e somos muito unidos. É uma situação de muita impotência também, porque muitas vezes, por mais que se queira ajudar os outros, não está em nossas mãos. 80% dos alimentos vendidos na reserva são 'junk food' Quando Amber Kanazbah Crotty precisava fazer compras, ela viajava quase 65 km até o mercado mais próximo de sua casa. A delegada do Conselho da Nação Navajo, uma espécie de Congresso do governo interno da reserva, afirmou à BBC News Mundo que essa é uma realidade para milhares de pessoas ali.

Segundo Kanazbah Crotty, encontrar comida fresca na Nação Navajo é quase uma utopia, e há ali altos índices de doenças na comunidade associadas à má alimentação. Um levantamento do grupo de especialistas navajos Diné Community Advocacy Alliance identificou apenas dez mercados, e 80% dos alimentos vendidos neles podem ser considerados "junk food". "O alimento mais acessível é o de pior qualidade, e isso influencia nossas altas taxas de diabetes, obesidade e doenças cardiovasculares, condições que sabemos ter impacto na letalidade do coronavírus", diz Kanazbah Crotty. "Também temos problemas respiratórios e câncer porque temos minas de carvão e urânio, coisas que afetam nosso corpo há anos e enfraquecem nossa resposta ao vírus." Segundo dados oficiais, quase um quarto dos habitantes da Nação Navajo têm diabetes, cerca de 10% padecem de alguma doença cardiovascular e metade da população é obesa. Ainda que existam jovens entre os afetados, um dos maiores temores na comunidade envolve a saúde dos mais velhos, considerados figuras sagradas e sábias dentro da tradição e sem os recursos culturais necessários para entender o que está acontecendo. "Temos uma população adulta que fala apenas uma língua, e traduzir o idioma navajo exige tempo e experiência." Os navajos, que têm uma língua bastante descritiva, chamam a nova doença de "Dikos Ntsaaígíí-Náhást'éíts'áadah", que significa literalmente "a grande doença da tosse 19".

"Explicamos que afeta os pulmões, que terão dificuldade para respirar, que dá muita tosse e febre.

Temos que explicar muito didaticamente porque, do contrário, eles não entendem o que estamos falando." Tragédia anunciada Para Allison Barlow, diretora do Centro Johns Hopkins para a Saúde dos Indígenas Americanos, a situação que se vive na Nação Navajo há décadas atingiu uma "tempestade perfeita", e a crise do coronavírus se tornou um massacre ali.

"O que vemos hoje é resultado de um sistema falido e disfuncional que perdura há gerações", afirmou à BBC News Mundo.

Segundo a especialista, a situação nesta e na maioria das tribos indígenas dos EUA é causada pela "falta de ação do governo federal, que não respeita os termos dos acordos com essas nações".

Após a tomada do território da maioria das tribos indígenas durante a expansão territorial do país (e anos de conflitos), os EUA se comprometeram a oferecer tratamento especial para os integrantes dos povos originários.

Como ocorreu com outras comunidades, o governo central firmou há mais de um século um acordo com a Nação Navajo no qual se responsabilizava pela oferta de serviços de saúde, educação e bem-estar social, entre outros.

"Mas na prática o governo federal falha no financiamento adequado a esses programas.

Não importa quem esteja no comando da Casa Branca, republicanos ou democratas.

Os maus-tratos às populações indígenas são uma constante", afirmou Barlow. "A covid-19 apenas jogou luz sobre esse sistema falido em que o governo americano os obriga a viver." A BBC News Mundo entrou em contato com o Escritório de Assuntos Indígenas, a agência do governo dos EUA responsável pelos povos originários, a fim de ouvir o que o órgão tem a dizer sobre os pontos relatados pelas pessoas ouvidas na reportagem.

Mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.

'Tudo tem seu devido lugar neste universo' Meu nome é Greg Casarroja.

Sou do clã Todich'iinii (Água Amarga) e nasci no clã Bit'ahnii (Braços Cruzados).

Agora dou aulas no colégio Diné, universidade dos navajos em Tsaile, no Arizona.

Acredito que aqui na Nação Diné (esse é o nosso nome originário) a pandemia de covid-19 abriu um debate sobre nossos valores tradicionais. Em nossos ensinamentos antigos, acreditamos que tudo no universo está relacionado a nós e tudo está relacionado um ao outro.

Todos e tudo têm seu devido lugar neste universo. Em nossa cultura, temos um lema: só você pode tomar a iniciativa. São tempos difíceis, mas a Diné está sendo testado e começamos a perceber mais uma vez que nossa história, cultura, canções e orações estão cheias de remédios para enfrentar os monstros que vagam pela Terra. Nessas circunstâncias difíceis que nossa nação está passando, fazemos oferendas à terra, oferendas aos elementos. Muitos estão tomando remédios naturais que nossos sábios sabem como preparar, mas também perdemos aqueles que tinham esse conhecimento antigo. Mas a Diné também tem certeza de que isso passará. No fim, sabemos que a Mãe Terra sempre nos oferta e protege e, quando morremos, só retornamos a ela.

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