Ao longo de 3 anos, morador de Altinópolis (SP) flagrou o processo; especialista explica o fenômeno.

12 ninhadas do beija-flor-tesoura foram acompanhadas de perto por servido público de Altinópolis (SP) Roberto Leite/VCnoTG O Terra da Gente já contou a história de um beija-flor-tesoura que fez seu ninho no quintal de uma família da cidade de Altinópolis (SP).

A moradia da ave era curiosa, especialmente por ter utilizado em sua estrutura um laço, o que conferiu uma aparência de “presente” ao ninho.

Mas o envolvimento desses moradores da cidade com o colibri não parou por aí.

Um ano depois da primeira narrativa, o Terra da Gente reportou que o mesmo beija-flor já tinha se reproduzido outras cinco vezes no mesmo local e que o morador da residência, Roberto César Alves Leite, havia flagrado todas as aparições.

Morador registrou a quinta reprodução do beija-flor-tesoura no quintal Roberto César Alves Leite Agora, a história desse “berçário da natureza” ganha outro capítulo: três anos após a primeira postura de ovos, a família comemora o fato de ter acompanhado a 12ª ninhada dos beija-flores no mesmo lugar.

Curiosamente, a alegria veio após já terem perdido as esperanças quando, no final do ano passado, encontraram o ninho no chão.

Apesar de tentarem costurar, colar, a estrutura não atraía mais os moradores.

Veja vídeo com as 12 ninhadas do beija-flor-tesoura acompanhadas de perto em Altinópolis Por sorte, o rumo dessa história mudou.

“No início do mês passado, nos deparamos com uma beija-flor rondando o mesmo lugar onde era o ninho antigo.

Ficamos ansiosos para ver o que aconteceria e, dentro de uma semana, pronto! O novo ninho já estava devidamente construído”, descreve Roberto que desde a primeira ninhada apelidou o beija-flor-tesoura de "Florzinha". Após o ninho ter sido destruído, Roberto observou a ave acertar os mínimos detalhes todos os dias, num cuidado extremo com a nova residência Roberto Leite/VCnoTG Com um acervo tão vasto de fotos e vídeos das aves, o morador de Altinópolis garante ver detalhes no beija-flor que comprovam ser o mesmo indivíduo se reproduzindo no local durante esses anos.

Para o biólogo especialista em aves Vítor de Queiroz Piacentini, outros fatores reforçam essa tese: como a fêmea do beija-flor é responsável por construir o ninho, incubar os ovos e cuidar dos filhotes, o fato de ter reutilizado o mesmo sítio de nidificação pressupõe que tenha “aprovado” aquele local.

“Seria inesperado que outra fêmea tomasse o lugar e fizesse o ninho no exato mesmo ponto”, argumenta. Ainda de acordo com ele, apesar de não ser incomum beija-flores se reproduzirem no mesmo local, é muito raro uma ave tentar fazer um novo ninho em um ambiente onde o antigo falhou ou foi destruído.

Em geral, ela abandona o espaço.

“Se a fêmea utilizou o mesmo local por 12 ninhadas seguidas é sinal que ela o considera bastante seguro e propício para nidificar”, afirma ele. A cada cria, dois filhotes nasciam e se desenvolviam no local, apenas um deles morreu no processo Roberto Leite/VCnoTG Mas passar por 12 ninhadas, em três anos, é algo comum para beija-flores? Segundo o especialista, essas aves costumam se reproduzir apenas durante a primavera e início do verão.

Dessa forma, a espécie flagrada em Altinópolis teve de três a quatro ninhadas por estação.

A média não assusta, mas pode ter sido expandida por outros fatores.

“Tendo alimento disponível, as aves podem investir energia em ninhadas adicionais.

E com anos recentes mais quentes, em média, é possível que as condições climáticas ideais para o beija-flor-tesoura (e os insetos dos quais ele se alimenta) tenham se estendido além da duração usual”, conclui Piacentini. Apesar da alegria de ter acompanhado as 12 ninhadas, Roberto Leite destaca que o momento mais especial foi observar a reconstrução do ninho.

“Ela me traz paz, equilíbrio e me faz refletir muito sobre essa vida louca e desenfreada que estamos vivendo.

Em meio a tanta correria por produtividade, dinheiro e o tão buscado ‘sucesso’, não estamos voltando nossos olhos para o que é belo, para as belezas que Deus fez e que possui valores intangíveis”, reflete.

E, adivinhe só, o beija-flor já está chocando no mesmo ninho para dar a origem a mais filhotes! Novos filhotes já se desenvolvem no mesmo ninho repetindo o ciclo, mais uma vez Roberto Leite/VCnoTG “Às vezes demoramos semanas, meses ou anos para concretizar os nossos projetos em busca de nossos sonhos e quando chegamos lá o que fazemos? Queremos um sonho maior, pois aquele que conquistamos já não basta.

Um beija flor direciona seu foco para o ninho, depois para a incubação e finalmente para a constituição da família.

Cada coisa no seu tempo.

E quando acaba o que ela faz? Começa de novo, pois o ciclo da vida não pode parar”