Antes de encontrar o excelente artigo de Wil S.

Hylton, escritor e jornalista da revista do "The New York Times", eu naveguei sobre temas que tinham a ver com nutrição.

É o assunto do momento nesses dias de festas, em rodas de conversa de amigos.

Muita gente já está se preocupando com o tipo e a quantidade de alimentos que ingere na vida adulta, tentando se poupar para uma velhice mais saudável.

Na minha busca pelo mundo da web para trazer novidades ao leitor, encontrei Vandana Shiva, a física indiana e ativista ecológica que criou o Banco de Sementes e que há quarenta anos tem sido um pesadelo para a multinacional Monsanto.

Neste tempo, ela tomou para si a tarefa de alertar o mundo sobre os venenos que consumimos em comidas processadas.

Muitas vezes sem saber, outras vezes conscientes.

É assim a vida, cheia de escolhas.

A vida de Vandana Shiva vai ser mostrada num documentário, o "As sementes de Vandana Shiva", e é apresentada como "um conto clássico da luta de Davi contra Golias".

Deste ponto fui conduzida para outro documentário, este finalizado há um ano, do brilhante Yann Arthus-Bertrand.

Chama-se "Sobre florestas e homens" e consegue mostrar, em pouco mais de sete minutos, porque deveríamos nos preocupar muito mais em conservar as florestas do que em usá-las como produto.

De medicamentos ao nosso alimento, tudo vem dali, um ecossistema que funciona perfeitamente, como um balé, quando o homem consegue interferir o mínimo possível para se beneficiar dos bens que dali emergem. Mas, como se sabe, tanto as sementes de Vandana Shiva quanto os alimentos que os amigos se fartaram de comer na noite de Natal, legitimamente dando mais espaço ao prazer do que à preocupação estão severamente ameaçando este ecossistema.

As florestas precisam de olhares mais cuidadosos, exigem mais reflexões do que máquinas que revolvam suas entranhas sem cerimônia. Neste caminho, minha pesquisa levou-me à triste notícia de hoje, publicada no site do jornal britânico "The Guardian", dando conta de que a cidade de Londres tem os níveis mais altos de poluição microplástica já registrados até hoje.

Vai ficando cada vez mais difícil respirar por conta da quantidade de plásticos que estamos usando e descartando ao léu, na natureza.

Nos oceanos, a quantidade de plásticos é quase inimaginável...

Fiquei pensando sobre como deve estar difícil a vida dos seres marinhos e como a comprovar a tese de que "nada é tão ruim que não possa piorar".

Então, li o excelente e extenso artigo de Hylton.

O jornalista dedicou bastante tempo a pesquisar sobre a mineração no fundo do mar, e traz notícias que não vão deixar sossegados aqueles que se preocupam com os rumos que a sanha desenvolvimentista tem traçado para nossa civilização. Entre pesquisas e entrevistas reveladoras que vão traçando um cenário bem real e sombrio sobre a forma como grandes empresas já estão se lançando para ir cada vez mais fundo à cata de minérios que viabilizarão, por exemplo, baterias de carro elétrico mais e mais potentes, o jornalista se deu um tempo para participar de uma reunião da Autoridade Internacional do Fundo Marinho (ISA, na sigla em inglês).

Trata-se de uma modesta agência da ONU criada há 25 anos, quando foi formatada a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.

Para comemorar a data, foi realizada uma Conferência em novembro, na Jamaica.

E Hilton estava lá.

Na volta, escreveu o artigo com o título: "A maior operação de mineração da história está prestes a começar". Sim, e ela vai acontecer no fundo do mar, onde já se descobriu os mesmos minerais encontrados em terra: cobre, níquel, prata, platina, ouro e até pedras preciosas.

Já existem hoje programas de mineração subaquática, como por exemplo na costa oeste da África, onde o De Beers Group está "usando uma frota de navios especializados em busca de diamantes".

Ou nas águas territoriais de Papua-Nova Guiné, um dos países mais pobres do mundo segundo o IDH do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) mas que tem minerais preciosíssimos em seus oceanos que já estão sendo explorados pela empresa Nautilus Minerals. O gol, a meta, o prêmio dessas empresas, no entanto, ainda está por vir, quando um Código de Mineração, que está sendo elaborado, ficar pronto e liberar a mineração em águas internacionais.

A ONU entregou a tarefa de organizar este tratado à Autoridade Internacional do Fundo Marinho, cujo diretor, segundo Hylton, não tem muita disposição para reflexões profundas sobre o desastre que pode acontecer se esta prática no mar começar a acompanhar o mesmo padrão extrativista na terra. "Cerca de 30 empreiteiros minerais já possuem licenças para trabalhar em regiões abrangentes dos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico", escreve Hilton.

Se o Código de Mineração liberar, elas esperam escavar milhares de quilômetros quadrados por ano. "Seus veículos de coleta rastejam pelo fundo em fileiras sistemáticas.

Os navios puxam milhares de quilos de sedimentos através de uma mangueira para a superfície, removem os objetos metálicos, conhecidos como nódulos polimetálicos, e depois jogam o restante de volta na água.

Parte dessa pasta conterá toxinas como mercúrio e chumbo, que podem envenenar o oceano ao redor por centenas de quilômetros.

O resto flutuará na corrente até se estabelecer em ecossistemas próximos.

Um estudo inicial da Academia Real Sueca de Ciências previu que cada navio de mineração liberaria cerca de 2 milhões de pés cúbicos de descarga por dia, o suficiente para encher um trem de carga que tem 26 quilômetros de comprimento". É impossível prever quantos ecossistemas serão cobertos por esse sedimento, mas uma pesquisa recente feita pelo Greenpeace fala que eles podem viajar por centenas ou milhares de quilômetros.

Hylton entrevistou pesquisadores que tentam alertar sobre os riscos.

Um deles, Craig Venter, acusado de tentar privatizar o genoma humano, ou seja, que claramente não tem aversão à ciência ser usada para fins lucrativos e não tem medo de mexer com a natureza, assusta-se com a investida da mineração no fundo do mar: "Essas empresas devem fazer pesquisas microbianas rigorosas antes de fazer qualquer outra coisa.

Conhecemos apenas uma fração dos micróbios lá em baixo, e é uma péssima ideia estragar com eles antes de sabermos o que são e o que fazem", disse. Talvez seja um bom início de conversa para a próxima roda de amigos quando o assunto for saúde.