Com atuação discreta, presidente da China tenta conter danos à imagem por críticas à falta de transparência do regime ao lidar com epidemia.

10 de fevereiro: Ciclistas com máscaras para proteger contra o coronavírus passam em frente a retratos de Xi Jinping e Mão Tse Tung em Xangai, na China.

Aly Song/Reuters Nenhuma crise foi capaz de desafiar, em sete anos, o sistema político arquitetado pelo presidente da China, Xi Jinping, como a epidemia de coronavírus, que até agora matou mil pessoas, infectou mais de 50 mil e isolou 60 milhões de chineses numa quarentena forçada em 15 cidades.

Como o líder mais autoritário do país desde Mao Tsé-Tung, Xi reforçou o culto à sua personalidade, centralizou o poder, aperfeiçoou o controle estatal do topo para baixo e limitou o fluxo de informações para sustentar a imagem de uma China rejuvenescida.

Desta forma, conseguiu manejar à distância protestos incessantes em Hong Kong, resistiu à pressão da guerra comercial promovida pelo presidente americano, Donald Trump, e assistiu à reeleição, em Taiwan, da presidente Tsai Ing-wen, esnobada por Pequim. Mas saúde pública requer transparência e não pode ser simplesmente justificada por ingerências ou interesses externos.

A omissão de informações em Wuhan e a lentidão no reconhecimento do surto amplificaram as fraquezas do regime autocrático moldado, à sua maneira, pelo presidente. Quando a emperrada máquina do sistema de partido único começou a agir, era tarde.

A frenética construção de dois hospitais para fazer frente à epidemia não aplacou a desconfiança da população diante da censura.

A onda de indignação se propagou rapidamente após a morte do médico Li Wenliang, que foi preso após reportar os primeiros casos de coronavírus. China inaugura segundo hospital para pacientes com coronavírus A ausência de Xi se fez visível.

O presidente gere a epidemia de Pequim, a mil quilômetros de seu epicentro.

Despachou para Wuhan o primeiro-ministro Li Keqiang e manteve-se longe dos holofotes.

O governo põe a responsabilidade nas costas dos dirigentes locais, que tardaram a agir justamente por obedecerem ao mandamento básico do regime: a espera de ordens claras vindas do topo do comando. Essa contradição parece ser também uma estratégia do regime: tentar manter inabalada a confiança dos chineses no presidente que investiu para ostentar o título de líder do povo e, em 2018, tornou-se vitalício ao estender possibilidade de prorrogar indefinidamente seu mandato.

A atuação discreta diante do coronavírus, contudo, não agradou e suscitou críticas.

E Xi reapareceu, na segunda-feira, de máscara, em visita a hospitais e bairros de Pequim, numa demonstração de que está no centro do comando.

O governo central aponta bodes expiatórios -- os que não agiram prontamente para conter o vírus quando surgiu no Mercado Huanan -- com o claro objetivo de evitar que Xi Jinping perca capital político e saia enfraquecido. É improvável que a epidemia e suas drásticas consequências para a economia chinesa derrubem o presidente.

Mas a sua prorrogação pode abalar as estruturas do regime.

Quanto mais tempo durar, mais o presidente e seu sistema estarão sob julgamento interno.