A crônica da jornalista Miriam Leitão para o blog neste sábado Acordei para a vida no meio de fadas, duendes, bruxas, cavaleiros intrépidos, gigantes, dragões, seres mínimos, bichos empalhados que voltavam à vida durante a noite, um barão que vivia aventuras mirabolantes, uma menina que crescia, encolhia, encontrava uma rainha louca e um coelho de relógio, florestas encantadas, animais que falavam.

Esse mundo mágico era meu abrigo na infância.

E havia o Pererê do Ziraldo, esperado ansiosamente a cada mês.

Nunca soube quando o inventado pareceu diferente de coisas concretas.

Sempre foi o que é, o que sempre será.

Apenas isso, mágico. Na vida real, um quintal gigante, árvores com frutas de comer no pé, um vizinho misterioso, uma casa mal assombrada, muitos, muitíssimos irmãos.

No início, as histórias eram contadas pelas irmãs mais velhas, depois eu mesma as lia desde o amanhecer.

Para mim, as manhãs sem escola tinham a delícia de acordar antes de o sol nascer para abrir o livro que havia dormido comigo na cama.

Não havia espaço para cabeceiras no quarto tão cheio de camas.

A casa em silêncio e eu dentro do livro.

Meu pai reclamava: – Não leia no escuro.

Coma antes de ler.

Hoje acordei com medo da morte das fadas, duendes, bruxas.

Medo de que a magia seja proscrita e a condenação apague a existência do inventado.

Não sei dizer se eu acreditava ou não naqueles seres, mas a eles agradeço a vida que me deram.

O espanto que me assalta agora, no tempo das interdições, é a coexistência pacífica, lá em casa, dos estudos religiosos conduzidos pelo meu pai Uriel, pastor protestante, com toda a fantasia que morava na estante dos livros infanto-juvenis.

Nunca houve palavra de reprovação ao mágico.

Eram livros e isso era bom.

Eles se misturavam a obras de uma editora religiosa, presentes de uma tia que trabalhara por um tempo na editora.

Foi num desses, enviados pela tia, que conheci Doutor Livinsgtone, eu presumo.

Os livros passaram a ser vistos como suspeitos de crime grave e má conduta mais recentemente.

De um lado, apareceram as dúvidas sobre se era correto serem as mocinhas sempre ingênuas, os salvadores todos homens, as madrastas tão más.

Grande debate.

As princesas eram frágeis e dependentes do príncipe que chegaria a cavalo.

Isso é fato em certa literatura clássica.

Mas a leitura dos contos de fadas não fizeram de mim uma mulher assim.

Talvez por ter aprendido com um certo barão que a melhor maneira de salvar-se é puxando-se pelos cabelos para sair do pântano.

Ganhei aos oito uma versão do Barão de Munchausen.

Fiquei eternamente apaixonada por ele e suas trapalhadas.

Sérgio me deu de presente a nova edição do clássico que está sempre ao alcance da minha mão.

O Barão começa dizendo que escolheu ir para a Rússia no inverno, porque as estradas eram melhores na neve.

E que ia a cavalo.

Entendi assim as missões impossíveis. Agora, sombras grandes cercam o mágico e aprisionam duendes, fadas, bruxas.

Eles começam a ser tirados das crianças porque não são puros e cristãos.

Então eu penso no mistério da minha casa, onde falava-se de Jesus Cristo naturalmente, quase como se fosse um dos moradores.

– Ai, senhor Jesus me ajude a achar meu sapato — pediu minha irmã mais velha, abaixando-se para olhar debaixo da cama.

Meu tio Nathanael, também pastor presbiteriano, chegou na porta do quarto e falou com o seu eterno bom humor. – É por isso que não ouve as minhas preces.

Está muito ocupado achando sapatos perdidos. Rimos todos da brincadeira com o divino tão próximo de nós e saímos para a igreja, minha irmã com os sapatos reaparecidos.

Neste clima fui crescendo.

Havia a igreja.

Havia estantes cobertas de livros de histórias mágicas.

E não havia conflito.

Lá estava a mitologia grega, à qual recorria muito meu tio Boanerges, também pastor presbiteriano, nas aulas do colégio.

Simplesmente não se concebia a ideia de que houvesse o que condenar naquelas histórias.

Um grande olhar fiscalizador hoje procura os erros e os pecados nos livros infantis.

Hoje eu acordei com medo de que a fantasia não resista ao cerco que está se formando em torno dela. * Miriam Leitão é jornalista e escritora.

Escreve crônicas aos sábados como colaboradora do blog