A criatividade da jornalista Clara Favilla pelo Brasil e o mundo A casa da fazenda é aquela simpleza com todo o necessário.

Logo depois da porta da frente, já na entrada, o grande pote de água fresca e a bandeja com copos de alumínio.

Lá longe, no fim do quintal, o fogão improvisado.

Apenas a trempe de ferro em cima de pedras mal-ajambradas.  O fogão de fora devora ramos secos e pedaços de madeira velha abandonados que, em rondas diárias, a família e os agregados vão juntando em pequenos montes.

Depois é só Galo passar com a carroça e recolher tudo.

Palhas de milho secas estão sempre penduradas nos varais.

Prontas para darem início ao fogaréu.

É assim que se ferve muita água para os banhos em grandes bacias de alumínio ou  para desencardir a roupa mais clara.

Também é assim que se cozinha a mandioca do almoço e faz o toucinho virar banha.

Doces em tachos para o ano inteiro: de mamão, de leite, de figo, de banana, de goiaba, de cidra, de abóbora. Perto do tanque, é sempre grande  o alvoroço em dias de fazer polvilho para os pães e biscoitos de queijo.

A mandioca é lavada e ralada.

A massa fica de molho e depois, dentro de panos brancos de algodão, é espremida com força.

O líquido grosso descansa em grandes vasilhas até que o amido se assente direitinho.

Então é só se livrar com cuidado da água que ficou por cima e deixar todo aquele branco do fundo secar ao sol.

Não se pode esquecer de cobrir com panos leves, quase transparentes, para que o vento não carregue tudo, deixando a grama em volta da casa toda nevada.

Seco, o polvilho é peneirado até ficar fininho e sem caroços.

Aí é só guardar bem guardadinho, em potes longe da umidade. Lá da cozinha, o café se anuncia.

Beto me faz pular da cama.

Primeiro, bate impaciente as patinhas sujas no cobertor.

Depois, esfrega o nariz gelado na minha cara e logo vem aquelas lambidas babentas.

Já passa da hora de se chacoalhar a preguiça do corpo.

Na chapa do fogão de dentro, o bule verde fumega.

À mesa, leite e biscoitos de polvilho, bolo de fubá e queijo fresquinho.

Maristela soca o pilão e faz o milho virar quirelinha.

Bem cozida, será servida com costelinhas de porco – tomara que já no almoço!  Do curral, vem a voz forte de Chico no comando.

É hora de separar os bezerros das mães e devolvê-los à pastagem.

Só serão reunidos à tarde, após a segunda ordenha do dia.

Depois são separados de novo, porque é de noite que se faz o leite da manhã.

Regininha espanta as galinhas dos canteiros de alface.

A cerca de bambu já gasta, mas ainda firme, não serve de nada.

Só se cortar as asas das galinhas e frangos, o que dá dó.

Coqueiro resmunga.

Sô Carlos pisa em ovos pela casa e assusta os gatos desprevenidos. Passa das dez da manhã.

O vento que chega à varanda faz voar as cortinas da sala e traz o doce da cana-caiana, macia, que Mercinha descasca lá no quintal.

Stella procura abacaxis maduros.

Os já comidos um pouco pelas gralhas são os melhores.

Embaixo da árvore perto do gamelão, onde o polvilho se assenta, Beto e Pelezinho peleiam: Beto late sem parar, Pelezinho solta gemidos que nem criança. Stella volta com a cesta de palha abarrotada.

Não vemos desses abacaxizinhos na cidade quase nunca.

Na ponta são azedinhos; no meio, bem docinhos.

Também trouxe de um tanto de florzinhas, dessas sem-vergonhas, que nascem ao deus-dará.

Agora procura por vasos: não tem.

Maristela faz garrafas verdes e azuis de vasos.

Os arranjos ficam bonitos.

Pena que à tarde, mesmo com água trocada e fresquinha, já estarão tristinhas.

Flores, dessas que nascem e crescem ao léu, são frágeis.

Melhor deixá-las onde estão.

Quem se ocupa do almoço não tem pressa com as panelas.

Quando a demora passa da conta, é aquela ladainha lamurienta dos que acordaram cedo e pegaram pesado na roça. Para ler os textos anteriores desta mesma história, clique aqui. * Clara Favilla é jornalista e escreve uma vez por semana sobre viagens