O artigo do ensaísta Davi Lago para o blog nesta semana A palavra “revolução” ganhou sentido político apenas em séculos recentes.

Por exemplo, quando Nicolau Copérnico utilizou a palavra “revolução” no título de seu livro “As revoluções dos orbes celestes” (1543) ele não teve a intenção de ser polêmico ou provocativo.

Apesar de sua obra ter reconfigurado nossa compreensão do cosmos e lançado as bases do sistema heliocêntrico, Copérnico utilizou a palavra “revolução” em seu sentido original: “girar e voltar ao mesmo lugar”.

Etimologicamente, o termo tem origem latina: “revolutio” – o ato de “revolvere” (“volvere” é volver ou girar; “re” indica a repetição do movimento”).

Copérnico estava falando sobre os giros realizados pelos corpos celestes. O significado político de “revolução” começou em 1660 quando a palavra “revolution” foi usada pela primeira vez para caracterizar a restauração da monarquia inglesa após a ditadura de Oliver Cromwell.

Como os monarcas voltaram ao poder, chamaram o episódio de “revolução gloriosa” (com a ideia da monarquia “girar de volta” ao poder).

Somente em 1789, na França, é que a palavra “revolução” ganhou o sentido político e social que lhe atribuímos hoje.

O ano zero da sociedade contemporânea é marcado pela tomada da prisão da Bastilha pelo povo francês.

Cansados da injustiça que rasgava o tecido social, os franceses partiram para uma ação sangrenta, começando com a invasão do presídio e culminando com a derrubada do Antigo Regime.

Os franceses chamaram os acontecimentos de “Révolution”, com inicial maiúscula mesmo (com a ideia de girar a estrutura inteira da sociedade).

Desde então, o conceito político de “revolução” ganhou a acepção atual de “luta para derrubada do status quo”. Ocorre que, em nossos dias, o status quo se tornou a agressividade gratuita.

Infelizmente, a truculência se tornou uma marca estável da sociedade informatizada: fake news, assassinato de reputações e discursos de ódio.

Este é o “novo anormal” – como diz o novo álbum da banda The Strokes.

Basta ver os acontecimentos desta última semana no Congresso Nacional.

Os conflitos entre a classe política e a imprensa são deseducativos.

A jornalista Patrícia Campos Mello, por exemplo, foi insultada em temas sensíveis de sua ética profissional.

Os detentores do poder não fazem questão de amenizar a temperatura hostil.

Por outro lado, os grupos derrotados nas últimas eleições apostam no “quanto pior melhor”.

E assim caminha o Brasil, sem conversas produtivas, apenas com monólogos simultâneos, todo mundo falando, ninguém ouvindo.

Não precisamos de inimigos externos, o brasileiro é o lobo do brasileiro. A revolução hoje é ser civilizado, gentil e humilde.

Como disse Andre Comte-Sponville, “a humildade é uma virtude humilde: ela até duvida que seja uma virtude!”.

Mas não há outro caminho para frear o clima suicida do debate público.

Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos e vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 2002, disse que a guerra poder ser, por vezes, um mal necessário.

Porém, não importa o quão necessária seja, ela sempre será um mal, jamais um bem: “Podemos optar por aliviar o sofrimentos.

Podemos optar por trabalharmos juntos pela paz.

Podemos – e devemos – fazer essas mudanças”.

O que temos de escolher é quem queremos ser.

Nada é mais revolucionário no Brasil atual do que cultivar uma responsabilidade pelo outro e pelo país que compartilhamos. * Davi Lago é paulistano, professor e pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da PUC-SP