O que o bilionário pré-candidato à Presidência nas prévias do Partido Democrata me dizia 20 anos atrás sobre a ascensão feminina no mercado de trabalho O ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg Getty Images/BBC Vinte anos atrás, na sede de sua empresa em São Paulo, entrevistei Michael Bloomberg.

Ele nem havia sido prefeito de Nova York – cargo a que se candidataria no ano seguinte e ocuparia por 12 anos –, muito menos cogitado entrar na disputa pela Presidência dos Estados Unidos.

Então com 58 anos, já era riquíssimo e comandava uma corporação com 7.100 funcionários, tida como fenômeno no mercado da informação digital, além de financiar um sem-número de atividades filantrópicas. Numa lista de entrevistados que inclui nomes como Bill Gates, FHC, Lula, grandes empresários do Vale do Silício e cientistas ganhadores do Nobel, Bloomberg foi quem mais me impressionou pela inteligência.

Não fugia das perguntas, respondia rápido, pensava em frases sintaticamente corretas, com raciocínios precisos e bem construídos.

Pelo menos duas vezes, ao discutir o mercado digital, deu um baile no entrevistador. Hesitou apenas quando questionado sobre seus arrependimentos e defeitos.

No resto, não titubeou um segundo.

Ao justificar o papel secundário da internet em seu negócio, previu o estouro da bolha das empresas ponto-com, vistas então como arautos da nova economia.

Vangloriou-se da filantropia, em especial da fortuna destinada à pesquisa em saúde na Universidade Johns Hopkins.

Insinuou que tentaria uma nova carreira, se não na política, com certeza no serviço público. Hoje criticado pelas feministas, já naquela época Bloomberg manifestava um misto de desconforto e preconceito ao discutir as mulheres no mercado de trabalho.

“Se você quiser chegar ao topo, terá de trabalhar mais que os outros, a não ser que tenha sorte – e não dá para confiar na sorte”, afirmou.

Em seguida, foneceu sua explicação para os obstáculos à ascensão feminina: – Nossa empresa já é metade feminina e metade masculina.

A maioria nem chega perto.

Uma mulher chega para mim e diz: ‘Tenho minha carreira, mas também tenho minha família.

Como fazer com ambas?’.

Não tenho resposta para isso.

Temos uma meritocracia, onde para ter sucesso é preciso trabalhar duro.

Não dá para estar com os filhos e estar no trabalho ao mesmo tempo.

Não tenho uma boa resposta para isso.

É uma questão difícil.

Tenho muita compreensão, tenho duas filhas, mas simplesmente não sei o que fazer a respeito. A certa altura, ele contou a história de uma funcionária que pedira demissão porque a Bloomberg não oferecia a possibilidade de trabalho em tempo parcial.

Na semana seguinte, o marido dela morreu.

Ela não tinha seguro de vida.

Blooomberg contou que decidira pagá-lo, mesmo que ela não tivesse direito.

“Você poderia afimar que sou um bom sujeito, ou então que fiz isso porque era bom para o meu negócio.” A “bondade” de Bloomberg, considerado o oitavo homem mais rico do mundo com fortuna acima de U$ 60 bilhões, vem sendo devassada pela imprensa americana.

De acordo com um levantamento do New York Times, ele doou nada menos que US$ 9,5 bilhões nos últimos anos a instituições de caridade.

Só no ano passado, foram US$ 3,3 bilhões – dos quais US$ 1,8 bilhão à Universidade Johns Hopkins. As principais causas financiadas por Bloomberg estão entre as preferidas dos democratas: controle na venda de armas e combate ao aquecimento global.

Em meio à maré de populistas cujo discurso tenta conquistar os eleitores pela emoção, ele se apresenta como um financiador e defensor de políticas baseadas na razão, na ciência e no pragmatismo. Mas as doações também lhe garantem acesso a uma rede particular de apoiadores, espalhada pelo país.

“A filantropia tática dá a Bloomberg uma capacidade única de influenciar a decisão de instituições, centros de poder tradicionais e formadores de opinião na política democrata”, afirma a analista Vanessa Williamson, da Brookings Institution. Também na política, a “bondade” coincide com os objetivos de Bloomberg.

Quando quis mudar a legislação para concorrer ao terceiro mandato como prefeito nova-iorquino, doações foram fundamentais para garantir o apoio de ativistas que antes se opunham.

Ou para silenciar a gritaria entre republicanos quando decidiu sair do partido em 2007.

Ou ainda para assegurar que líderes da comunidade negra deixassem de lado as críticas à política de revista baseada em critérios raciais implementadas pela polícia em seu governo. Seu gasto em campanhas eleitorais também é superlativo.

Foram modestos US$ 11 milhões em 2013, último ano como prefeito.

Em 2018, ano em que se filiou ao Partido Democrata depois de ter sido republicano a vida toda, tornou-se o maior doador nas eleições de meio de mandato, destinando US$ 100 milhões a candidatos à Câmara, Senado ou governos estaduais. Desde que anunciou que disputaria a Presidência, em novembro, já gastou US$ 401 milhões em sua campanha, sem aceitar um único centavo de doadores.

É, de longe, o maior dispêndio do próprio bolso de um candidato na história americana.

Montou uma estrutura profissional, garantindo aos funcionários refeições de qualidade e dispositivos tecnológicos de última geração. Desprezou as prévias iniciais em Iowa, New Hampshire, Nevada e Carolina do Sul.

Apostou todas as fichas nas disputas da Super-Terça, dia 3 de março, quando seu nome enfim aparecerá nas cédulas e estarão em jogo um terço dos delegados democratas, em estados como Califórnia ou Texas.

Inundou de anúncios as disputas mais valiosas e aquelas onde suas chances são maiores.

Na média das pesquisas nacionais, já aparece em terceiro lugar, atrás do ex-vice-presidente Joe Biden e do líder Bernie Sanders.

Chegou a figurar no topo em algumas sondagens na Flórida e no Arkansas. O passado republicano, a política diante dos negros quando prefeito de Nova York e as declarações sobre as mulheres provocam resistência em eleitorados críticos para os democratas.

Apesar disso, Bloomberg tem roubado de Biden o papel do “moderado” capaz de derrotar tanto o “socialista” Sanders nas primárias, quanto Donald Trump nas eleições de novembro.

Os bilhões e a "rede filantrópica" de apoio são um trunfo de que nenhum outro rival no partido dispõe para chegar lá.