Natuza: crise na segurança pública do Ceará repercute no governo federal Uma parte do governo está vendo com um olhar de preocupação o motim de policiais militares no Ceará.

Primeiro, porque essa situação afeta o governo federal de diversas maneiras.

E uma delas decorre do fato de o Ministério da Justiça ter puxado o combate à criminalidade para o colo da administração federal.

Logo, um evento infeliz e alarmante como o ocorrido com o senador Cid Gomes (PDT-CE) e a situação preocupante no Ceará repercutem no governo federal.

De um ponto de vista objetivo, porque o governo mandou a Força de Segurança Nacional para o estado pela segunda vez no período de um ano.

Mas também repercute na forma como o governo federal administraria algo numa situação maior ou para além do Ceará.

Há, em outros estados, algumas reivindicações muito parecidas, e o governo federal está olhando atentamente – e está olhando preocupado.

A situação em Minas Gerais, embora não pareça, tem toda conexão do mundo.

O governador Romeu Zema (Novo) – que é um liberal e ficou sustentando uma agenda liberal ao longo de toda sua campanha – mandou para a Assembleia de Minas Gerais um projeto para aumentar o salário dos policiais militares que estavam havia muito tempo sem aumento.

Mas o estado está quebrado.

O limite de responsabilidade é ultrapassado ao se falar de aumento para quem quer que seja.

Em geral, os governadores se sentem muito coagidos com as pressões das polícias militares nos estados, justamente pelo poder que elas têm – poder de fogo, poder de expor a sociedade ao risco e à criminalidade, a situações lamentáveis, no Ceará.

Mas o fato é que o governador Romeu Zema – num estado quebrado, falido, numa situação de vender o almoço para comprar o jantar – propôs aumento salarial. Será que essa decisão do governador Romeu Zema tem alguma repercussão nacional, para outros estados? É claro que tem.

Porque aí o PM de outro estado diz o seguinte: "Por que em um estado quebrado o governador deu aumento de salário de mais de 40%? Ah, então vou querer o mesmo aqui também".

Irresponsabilidade e atos irresponsáveis de administradores públicos acabam repercutindo em outros lugares.

Esse é o grande risco.

Por isso, mais uma vez, o governo federal pode ser acionado para tentar resolver essa crise.

Esse tipo de motim, além de descumprir a lei, tem uma repercussão que pode cair no colo não só dos cidadãos – normalmente os mais expostos aos problemas.

O próprio governo federal pode vir a sofrer as consequências ruins de um eventual descontrole.

Não quer dizer isso vá acontecer, mas esses eventos não estão desconectados.

Uma decisão de um governador de dar aumento numa situação e num momento de extrema dificuldade financeira, em que está devendo para o governo federal e para Deus e o mundo, acaba se combinando com uma paralisação em um outro estado, em outro lado do país.

E promovida por policiais militares que não deveriam estar amotinados, protestando daquela maneira.

Isso tem repercussão.

É um péssimo exemplo.

Significa que o governador de Minas Gerais é responsável por isso? Não.

Significa apenas que, se você juntar as coisas, pode haver repercussão dessa insatisfação de policiais militares em relação aos governos que estão quebrados.

Cenas lamentáveis como vimos no Ceará precisam ser observadas por outros governadores e sobretudo pelo governo federal, para evitar descontrole.

Como já foi dito e explicado pelo ministro Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, esse tipo de mobilização como a dos PMs do Ceará é ilegal, é inconstitucional.

Uma mobilização dessa maneira é absolutamente condenável, mesmo que a demanda por aumento salarial seja louvável.

Tem muitos policiais que ganham pouco – a base da polícia militar ganha pouco para o tipo de risco que enfrenta todos os dias em sua rotina de trabalho.

Mas esse tipo de motim é inaceitável, porque expõe a população inteira.